segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Faltam menos de dez dias pro fim do ano e acho que fico sensível em despedidas.
Essa manhã você me deu um beijo de bom dia e uma vontade de chorar me imundou, embora eu tenha pensado não demonstrar, você me olhou nos olhos e soube que em mim morava a fragilidade, retribuiu meu amor com mais dois beijos, um em cada olho agora já molhados e me abraçou tão forte e tão sereno que eu quase esqueci que você tinha só três anos e que a mãe no caso sou eu.
Lá se vai o ano da força, meu pequeno.
Lá se vai o ano da cumplicidade, meu parceiro.
Lá se vai o ano do medo, meu herói.
Lá se vai. Lá se vai o ano que descobrimos juntos o poder do nosso amor.
O ano em que tive a certeza de que tudo o que sou hoje, tem você no meio. E que tudo que você é hoje, tem o que eu acho que devemos ser no futuro.
Você é a vida que pulsa em mim e tempo algum vai conseguir abrandar a brasa que ainda me queima o ventre com a certeza da sua chegada nesse mundo.

Te amo.
E como você costuma dizer pra mim nas suas declarações:
Te amo além e ao infinito.
Mamãe.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O filho

Desde que me percebi mãe, aprendi a reavaliar. E nem sempre reavaliar é simples e indolor.
A gente deseja ser ponto de apoio pra um filho, deseja que ele corra longe mas saiba que pode voltar, deseja que ele saiba do nosso amor independente do que ele faça ou seja, deseja que ele tenha a serenidade de que você estará ali mesmo quando ele errar, mesmo quando ele estiver só, mesmo quando nem ele queira estar. Você, mãe, vai estar. Vai descobrir forças onde não conhecia.
A gente deseja ser o nosso melhor. A gente deseja.
Mas nem sempre a gente é o nosso melhor.
Quase sempre a gente está é apenas tentando ser.
E tem ainda o momento em que você percebe que esse ser que divide a vida contigo, também está fazendo o melhor que pode. E você vai errar e ele vai ser testemunha.
Hoje foi um dos dias em que simplesmente eu estava errando. Errando feio. Eu estava cansada, irritada, num trânsito sem tamanho, sem ajuda de ninguém, cheia de coisas pra fazer e ao invés de perceber e tentar quebrar essa energia toda, eu continuava reclamando. Esbravejando sobre o trânsito, o sol, o carregador que não carregava, o flanelinha que achou que eu ia estacionar, o fulano do carro do lado que não parava de olhar, e o menino ali, irritando-se junto, começando a se queixar: essa cadeirinha é ruim. Posso sair dela? Posso ir em pé? Posso abrir a janela? Posso colocar a cabeça pra fora? Posso ir no porta malas? E a mãe enlouquecendo. Aquela vontade secreta que as mães nem sempre confessam de dizer: sim, só me deixa quieta! Mas insistindo em dizer apenas não. Não. Não. Naaaaaaaaooooooooo!
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Aí o menino vira e repete o discurso que a mãe prega desde sempre.
O menino quebra o ciclo. O menino diz a mãe o que ela ensinou ao menino.
Ele disse mais ou menos assim:
- Você tá feliz, mãe?
- Tô. Você tá?
- Tô irritado. A mamãe também tá irritada.
- É verdade... tô...
- Eu tô triste porque mamãe gritou comigo. Não precisa gritar.
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Aí eu fiquei ouvindo aquilo e não sabia o que sentir. Tava misturado, sensação de ser pega no flagra do erro.
Disse apenas:
- Sinto muito por ter gritado. Me desculpa. Tentarei não fazer de novo.

E ele estendeu a mão pra mim, segurou a minha e seguimos a viagem assim o filho compreendendo que a mãe também erra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Solidão materna

Ser mãe é muitas vezes uma das maiores solidões que alguém pode viver.
Não importa quem seja, o que faça, e o quanto sinta, jamais entenderá o amor que existe em você.
Cada amor de mãe pra filho é diferente, é único, contém traços incompreensíveis dedicação, zelo, receio e dor. Cada mãe se ocupa em compreender o próprio amor que nasce e a rebate. É uma busca pessoal e sem fim.
Estar com um filho é estar completa, mas ainda sim é estar só. Só, na labuta diária de cuidar, guiar e confortar... E é estar só na tentativa de compreender suas próprias dores e medos e alegrias minúsculas que outros olhos não são capazes de enxergar nas pequenas ações daquele ser tão querido.
É iluminar-se perante os olhares de carinho. É perder-se tentando buscar um caminho de ajuda. É rir-se por inteira ao ouvir um gracejo filial.
Mas ainda sim ser mãe é estar só. É pensar em alguém insistentemente a cada minuto. E nem sempre ter alguém pra dividir esses pensamentos. É sorrir com sorrisos gratuitos e se doer com cada lágrima perdida. É desejar o bem, é respeitar o limite. Ser mãe é tentar se acostumar com a ideia de que um dia os filhos se vão e dar o melhor de si para que eles vejam outros mundos com um pouco de você entranhado. É achar que morrerá de saudade e ainda sim querer que ele vá e seja feliz, tão feliz que a felicidade transborde. Ser mãe é não se doer com possíveis rejeições. É esperar cada regresso com a certeza que tempo algum consegue abrandar a brasa de amor que vive no seu peito. É perdoar, num sentido muito mais amplo e sincero do que até então você foi capaz. É ter longos braços que acomodem sinceros pedidos de proteção. É ter boca sábia capaz de acalmar as mais profundas dores. É ter pés velozes que chegam aonde for preciso na velocidade da luz, se assim tiver que ser. É partir-se quando um filho sofre, para em seguida recolher seus cacos para que um filho aprenda que nenhuma dor é eterna, que tudo passa, que tudo fica bem.
Ser mãe e estar só na companhia do amor.
Ser mãe e pedir ajuda.
Ser mãe e estar só mesmo quando se tem ajuda.
Ser mãe e não saber o ser.
Ser mãe e errar.
Ser mãe e sentir medo.
Ser mãe e continuar tentando.
Ser mãe apesar de tudo e qualquer situação.
Ser mãe e amar.
Sempre ser mãe.
A sua mãe.

domingo, 19 de outubro de 2014

Gabriel,
Estou com meu coração em festa. Aqui dentro toca música todos os dias. E adivinhe só que é que as compõe?
É você, menino moleque de sorriso grande e pés velozes.
Dentro de mim, nasceu junto de você a festa mais linda de todas, nela tem bolas de sabão que levantam vôo sumindo na imensidão azul levando com elas as energias que não precisamos deixar conosco. Nessa festa tem nossos doces favoritos, tem brincadeira de montão, confete estourando e derrubando sobre nós uma chuva de cor. É festa de todo dia, ela não acaba, ela revive a cada manhã quando eu me viro e encontro você com esses olhos de amor que parecem me conter dentro.
Desde que você chegou todo dia é verão, inverno, primavera e outono. Todo dia é turbilhão de sensações, é amor pulsante que me move em direção ao amanhã.
Vem, meu menino amado, meu colo é teu, embora nele você já pareça tão grande.
Deixa eu te abraçar comprido e me perder no seu amor.
Olha aqui, sou eu, está vendo?
Fui feroz pra te trazer a este mundo, e sou eternamente grata por você ter sido ainda mais feroz por querer vir a este mundo comigo.
Eu lhe digo ao pé do ouvido todas as manhãs quando você acorda, agora digo aqui:
Gratidão, meu filho, por me aceitar como mãe, por me amar enlouquecidamente, apesar desses tantos defeitos que carrego comigo, por se acalmar no meu colo, por sentir que suas dores acabam após meus beijos. Por me olhar quando está nervoso e buscar em mim a serenidade que precisa.
Gratidão, meu filho, por errar, e me ensinar que a paciência, amor e diálogo resolvem tudo.
Gratidão, meu filho, por não gostar de todas as coisas que eu gosto, e me ensinar a gostar do novo, abrir mão das minhas vontades e ceder, respeitar as tuas e claro, por aumentar meu poder persuasão quando se trata de verduras, legumes e frutas.
Gratidão, meu filho, pelas minhas olheiras, dor nas costas, peitos não tão bonitos quanto antes, cansaço de noite mal dormidas.
Tudo isso, se torna lindo e bom, porque significam que eu e você estamos aqui e juntos. São nossas marcas, e a elas sou grata.
Menino, vem, me dá tua mão, vamos continuar dançando juntos a dança a vida que mais um ano passou e tantos outros passarão sendo você meu par. Eu e você juntos, e quando outros nos tirarem pra dançar, aceitaremos felizes, porque nosso círculo de amor só cresce, com o amor que vem desses seres de luz que nos acompanham.
Estou sorrindo, vê? Meus olhos, ouvidos, fios de cabelos, mãos, barriga, todo meu corpo sorri.
Meu filho está aqui. Completaram três anos de sua chegada.
Completaram três anos de que desafiamos o impossível. Completaram três anos que o amor venceu, que o amor falou mais alto que as probabilidades, que as opiniões médicas, que o medo, que a dor. O amor venceu e vai continuar vencendo porque ele é grande demais e só cresce em mim e quando não cabe mais ele se abriga no coração dos nossos amigos que desejam nosso bem.
Gratidão a esses amigos também.
Feliz aniversário filho.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cenas da vida materna - O banho

Três, dois, um... o desenho favorito da criança começou. Ah, maravilha. Você respira fundo e vai. Tem quinze, se tiver sorte vinte minutos para fazer o que precisa. Começando por... Um banho!
Tira a roupa, rápido. Mães adquirem grande habilidade em rapidez.
Lembra que é melhor avisar a criança que vai estar debaixo do chuveiro, porque com certeza ela irá lhe chamar, mesmo hipnotizada pelo desenho, você sabe que ela vai te chamar ou para compartilhar um momento ápice na vida dos personagens animados ou para você pegar algo já que ela não quer tirar os olhos dos personagens animados. Então você, corre, metade vestida e metade não, diz:
- Filho, vou tomar um banho rapidinho. Qualquer coisa a mamãe tá aqui!
- Tá.

Volta pro banho.  Liga o chuveiro. Banhos estão diretamente ligados ao nível calmaria que você consegue lidar com as situações estressantes do seu dia a dia. Entra. Ah, o banho! Que delícia! Voltar a ser um ser humano, e não só apenas um ser humano mãe. O banho após a maternidade pode não significar apenas "um banho". Ele mostra que você tem quinze, se tiver sorte vinte minutos, de estar totalmente voltada para si, em busca de conexão consigo mesma. Podendo respirar calmamente... Droga! Sou mãe! Não dá tempo de filosofar no banho, faça escolhas: filosofia ou lavar o cabelo... Lavar o cabelo, claro!

- Mãããããeeeee!
- Quêêêê?????
- Vem aqui!!!!!!
- Tô no banho, lembra?
- Ah é!

Shampoo. Condicionador. Barulho na sala: Pfffffffffffffffffffff!

- Filhooo, que barulho é esse?
...
- Filho!
...
- Filhoooooooooooooooooooooooooooooo!
...

Então você sai do banho, ainda com condicionador no cabelo, sabonete nos olhos e vociferando pra si mesma: Ai! Sabia que não devia ter deixado ele sozinho. Sabia! Que espécie de mãe eu sou? E tudo isso pra que? Por mais um banho no meio da tarde que me faz relaxaaaaaaar!! Eu não preciso relaxaaaaaar!

- Cadê vocêêêê, meu amor, minha vida, meu filhooooo??????????
- Tô aqui, mãe. Tava só brincando no meu quarto! Fica calma!

domingo, 10 de agosto de 2014

Desfralde

Momento desfralde:
- Bom dia! Quer fazer xixi?
- Ainda não.
...
- Vamos brincar? Quer fazer xixi?
- Xô pensá... Ainda não.
...
- Gabriel, quer fazer xixi?
- Aaaainda não, mãe!
...
- Mamãe, fiz xixi!
- No penico?
- Ainda não...
(Cara de alface materna)

Calma e perseverança serão as chaves do sucesso. Eu acredito.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Meu nome é Débora, sou mãe e gostaria de dizer que assalto sacola de doces que meu filho ganha em festa e depois digo que estou apenas pensando numa alimentação saudável pra ele.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Carta ao menino que dorme fora de casa

Gabriel,

Preciso realmente que você preste bastante atenção no que será dito aqui. Tento, embora possa não parecer para uns ou outros, mas tento, não ser uma destas mães enlouquecidas que aprisionam a cria só para si, privando-as de viver outras experiências longe de sua proteção.
Entretanto, acho que estou cometendo alguns erros nesta minha ousada tentativa.
Posso citar exemplos dolorosos:
Hoje, você não dormirá em casa. Foi na festa da sua prima, e pela distância e horário ficará na casa da vovó. Não sei se você está preparado para tal. Não posso afirmar. Mas sem dúvidas, posso dizer, com uma rara certeza adquirida para os assuntos da vida, de que eu, definitivamente, eu não estou preparada para tal.
Sinto saudade de você em cada canto vazio desta casa. Tem silêncio e espaço demais. Tem brinquedos seus esparramados pelo chão e tenho vontade de beijar todos, um a um, sem exceção, inclusive os dinoussauros e aqueles ratinhos tenebrosos, só porque esta manhã você esteve brincando com eles.
Aliás, não me venha com chorumelas, vou dormir com todos os seus ursinhos hoje. Não quero saber de você reclamando que vai ter dividir. Sua hora chegou, molequinho. Não quer ser independente pra dormir na casa da vovó e comer cachorro quente? Pois bem. George, Peppa Pig e cia, Pocoyo, Mickey Mouse, Sansão e até o Ted... Isso mesmo... deguste este nome: T-E-D. Vão dormir na cama comigo esta noite. Vou abraçar, babar, cheirar cada um deles... pensando em você.
Pensando em como minha vida se preencheu com sua chegada, em como meus dias ficaram mais cansativos, ou em como descobri que consigo resolver oito problemas em meia hora, ou ainda, em como tudo mudou dentro de mim, e fora também, no meu corpo, e como não me importo com isso, porque essas mudanças sinalizam que algo verdadeiro e intenso existe no meu caminho. Vou estar pensando que hoje sei, que não preciso de mais nada para ser feliz, a felicidade está aqui dentro de mim, dentro de você, na nossa convivência, nos nossos encontros, e nas nossas descobertas.
Vou pensar que você me ensinou a ter coragem de enfrentar o que me amedronta. A pedir ajuda quando acho que precisaremos dela. Mas a pensar duas (ou três, ou quatro) se realmente precisamos dela. Vou pensar que não tenho medo de escuro ou de vento forte quando você está aqui. Vou pensar que sinto sua falta sempre após um minuto longe, mas que aprendo a conviver com ela. Riu, conto piadas, aconselho, sigo a vida, mas sempre com a certeza de que voltarei para algo maior.
Então por favor, escute bem este meu pedido.
Cresça, seja grande, viva sua vida, plenamente, mas vai fazendo tudo isso bem devagarzinho, bem em doses homeopáticas aproveitando as belezas de cada fase, vai ver que assim eu vou crescendo junto. Pode ser?

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Lagarta, mamãe e Gabriel

Estávamos eu e Gabriel saindo de casa. Ele apontou pro chão e disse:
- Olha uma lagarta.
Olhei e não tive certeza se era mesmo uma lagarta. Mas se fosse, era uma senhora lagarta. Grande e gorda. Linda. Multicolorida. E que rastejava em velocidade vertiginosa.
Claro que o que minha maturidade permitiu foi pegar a criança, pular a lagarta e correr metros. Ele ria.
Parei de correr. Coloquei o moleque no chão.
Três minutos depois ele pede:
- Me dá colo.
Dei com esforço.
- Agora corre mamãe!
- Gabriel, você tá pesado. Não dá pra correr.
Ele em silêncio. Senti que algo estava sendo planejado naquela cabecinha.
Não deu outra:
- Olha mãe! Corre! A lagarta tá vindo.
E riu com vontade.

As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho

Tenho repetido uma espécie de mantra materno incessantemente, todas as vezes que me deparo com uma situação, que para mim, se mostra difícil.
"As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho."
Digo isso baixinho quantas vezes forem necessárias a fim de que me querido cérebro, compreenda que eu não preciso perpetuar os meus medos, os meus anseios ou as minhas inseguranças nessa criança.
Sinto que para isso, é preciso que eu me permita sair do foco das vivências que não são as minhas. Digo permitir, porque acredito que não ser o foco, mesmo quando se trata de nossos filhos, é muito difícil.
As questões íntimas mais verdadeiras me parecem gostar de estar sempre em primeiro plano.
Portanto, quando o meu filho precisa viver uma nova experiência, é normal que eu crie internamente uma série de expectativas em relação a ela. Acontece que não me parece saudável que eu, transmita todas essas expectativas que são exclusivamente minhas, a ele. Impedindo que ele, por sua vez, crie as suas próprias expectativas, livre de qualquer persuasão materna e no sentido contrário, transmita, essas sim na sua real importância, a mim.
Este me parece ser o sentido correto que essas situações devem ter.
Ao longo dos dias passaremos, meu filho e eu, por situações que me são desconfortáveis. A questão é como não permitir que este desconforto seja levado a vivência da criança. Como não temer a situação que lhe causa angústia quando ela é vivenciada pelo ser que você mais devota amor.
Para mim, esta tem sido uma das mais difíceis experiências deste mundo materno.
Nada, absolutamente nada, sugere que meu filho precise sentir, como eu senti e ver dificuldades onde eu vi.
Se tenho medo de altura. Ok. Que chato pra mim. Se ele se coloca no mais alto degrau e diz que quer pular. Por que, diabos, eu, logo eu, deveria manifestar todo o meu receio neste pulo? Não sou eu que estou pulando. Não é ele que tem medo.
Ao contrário, acredito que devo me colocar a disposição dele, para ouvir o que ele deseja neste pulo. O que este salto representa para ele. O que está altura significa para os limites dele.
Numa total disposição, de assegurar seu bem-estar, mas não boicotar sua coragem.
Mães e filhos estão totalmente ligados e alterações que parecem imperceptíveis para os outros, são notadas com maestria por ambos os envolvidos nesta relação.
Meu filho sabe quando eu tenho medo. Sabe melhor do que ninguém. Por mais que verbalmente isso não tenha sido dito. Meu filho sabe quando me sinto enfraquecida. Por mais que o mundo não veja. Eu sei que ele sabe. Eu sei que ele conhece meu rosto, e a forma que falo com ele transmite tudo o que se passa dentro de mim.
Tenho tentando trabalhar muito isso. Tenho tentado me fortalecer. Tenho tentado buscar dentro mim coragem, quando essa me falta. Tenho tentado não me entristecer com o que não vale a pena.
Mas ainda tenho alguns grandes medo. O maior deles, sem dúvida, é o fantasmagórico medo que tomou conta de mim há quase três anos e meio, de que algo aconteça ao meu filho. Eu sei que ele sabe disso. Eu nunca o assustei e nem dramatizei para ele este meu medo. Entretanto, quando algo acontece com ele: um tombo, ou quando adoece, ou quando eu o perco de vista por alguns segundos, ou quando ele larga minha mão e corre num espaço público, eu sei que meu centímetro do meu corpo denuncia o medo que eu sinto, meu tom de voz denuncia, meu coração acelerado denuncia e sei que mais que tudo isso, quando eu o abraço e pergunto se está tudo bem, ele tem a certeza de que aquilo me afetou.
Isso é algo que eu não consigo controlar. Não sei, ao menos, se devo controlar.
Sim Gabriel, eu lhe amo mais do que cabe em mim. E é esse amor, esse medo de lhe perder, esta angústia de não lhe apoiar, que me faz querer ver você correndo os seus riscos. Sempre irei fazer tudo que eu puder conceber para que você fique bem. Sinceramente não desejo que você carregue consigo os mesmo medos que carrego comigo.
Para isso, ando me permitindo temer, respirar e deixar você seguir.
Deixando você construir sua coragem, suas vontades, tenho tentado, de coração aberto, deixar que você seja livre, que você se machuque e que continue apesar das dores que vai acumular.
Desejo que você escreva a sua história, baseado nos seus sentimentos, que eu seja sim, referência de apoio, mas que as minhas dores continuem sendo apenas minhas.




quarta-feira, 23 de julho de 2014

A segunda carta para o Gabriel

Gabriel,

Sou sua mãe e não sou feliz o tempo inteiro. Estou com isso entalado na garganta faz um tempo. As mães não são felizes em tempo integral. Não são seres supremos que não se abalam. Elas são um monte de outras coisas que não só mães.
Preciso te dizer isso, porque quando eu era criança eu achava que devia trazer a felicidade ao mundo. Achava que minha mãe, o ser principal do meu mundo, não devia se entristecer e encarava este como um dos meus deveres. Mas ela se entristecia. E mesmo eu, depois que você chegou na minha vida, continuo me entristecendo de vez em quando. O fantástico disso tudo é que não faz parte dos deveres dos filhos não permitir que isso aconteça, faz parte dos direitos das mães se permitir isso.
Portanto, tá aí a grande verdade: eu não sou feliz o tempo inteiro. Tem dias que acordo e quero ficar na cama. Não acho graça de todas as piadas. As vezes sinto que estou errando mais do que acertando. Em alguns momentos penso se fiz as escolhas corretas. Mas nada, absolutamente nada disso coloca em cheque o meu amor e realização por ter você na minha vida. Eu te amo e talvez seja isso um dos fatos que me tornam tão humana.
Não quero que você cresça achando que a felicidade é algo contínuo e permanente. Não quero que você cresça pensando que se permitir entristecer significa uma aceitação da infelicidade, ou atestado de qualquer outra coisa. A felicidade não está em lugar nenhum. Está aqui dentro de mim e de você. Felicidade está nos pequenos momentos. E para mim está em dormir barriga com barriga com você, está em subir no palco, comer pizza ou fazer bolinhos. Nunca se esqueça disso: a minha felicidade está em mim e por favor deixa-a continuar. Você não é o responsável por ela, por mais que suas ações tenham grande influência em mim, eu estou aqui dizendo para você que não tenho nenhuma expectativa de ser feliz o tempo todo. Eu ainda quero poder chorar. Eu ainda tenho medo e sonhos. Eu não sei todas as respostas e saber que nunca vou tê-las, por vezes me assusta.
Ser mãe me fez feliz, e me faz, e muito. Mas às vezes estou bem cansada e só quero um bom banho e dormir. E adivinhe só, você pode dormir tranquilo, seguir sua vida sem nenhum tipo de responsabilidade por isso. Porque você e eu somos indivíduos diferentes. Porque você é livre para sentir. E eu também.
Façamos um acordo: nos amamos muito, temos muito alegria e gratidão pelo nosso encontro nesta vida, mas as nossas vidas não se resume só a nós dois. E que bom que seja assim, meu amor!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nascer mãe

Quando eu decidi que meu filho nascesse, eu não esperava que haveria um outro grande nascimento nesta decisão. O meu.
Eu não sei nada sobre filhos. Mas sei mais do que qualquer um sobre o meu. E ainda sim, o meu filho, este ser humano já complexo ainda me deixa sem saber o tanto que eu gostaria.
Durante algum tempo tentei apenas prever alguns dos seus comportamentos, a fim de que eu pudesse evitá-los. Na maior parte das vezes, eu desejava com isso, me poupar do que eu acreditava (ou ao longo dos anos fui sendo convencida) de que era constrangedor.
Em estado de alerta me mantive, para por exemplo evitar que ele pegasse algum objeto perigoso, ou que ele agisse "fora dos padrões" enquanto eu fazia as compras do mês no supermercado lotado.
Chegou um momento em que eu parei de tentar apenas prever, porque isso me consumia uma energia não necessária e além do que, me afastava de estar presente e numa real troca com ele. Foi então que comecei a tentar compreender as ações ao invés apenas de evitar que elas fossem postas em prática.
Percebi então que na maior parte das vezes eu não deveria estar tentando modificar o meu filho e sim o foco da minha atividade.
Não é uma receita, é apenas uma experiência. Como disse, não entendo de filhos, entendo do meu, e olhe lá. Mas é isso, cada pai/mãe é o maior conhecedor do seu próprio filho.
Mas para mim, não é o meu filho que deve notar os objetos de perigo e não se aproximar deles. São os objetos de perigo que devem sair de perto dele. Aos poucos ele aprenderá a reconhece-los e eles poderão voltar ao seu lugar na minha casa. Mas a casa é do meu filho e não da decoração.
É claro que muitas vezes as crianças estão ao nosso lado em alguns programas não-próprios. Supermercado não é bacana. Eu mesma tenho vontade de gritar neles! Passei então a me esforçar em não inserir meu filho a estes programas, que não são adequados pra ele. Quando o levo para algum programa de adulto, porque a vida faz com que a gente não tenha controle de tudo, tento adaptar uma área em que ele possa se divertir com outras crianças ou outros estímulos em segurança. Não dá para esperar de uma criança algo que ela não está preparada para lhe ofertar. É preciso compreender. E não zangar-se.
Compreender o porquê da ação e não apenas bloquea-la, impedindo que meu filho descubra o que lhe atrai. Estar ao lado da criança a fim de que ela saiba da sua presença, buscando compreender suas dificuldades e ajudando que ele pudesse ultrapassa-las. E não apressando-se em reprimir um sentimento/desejo real.
Acho que meu dever de mãe não é dizer ao meu filho o que ele pode e não pode fazer. Não é que ele deixe de fazer algo simplesmente porque eu, ou algum outro adulto dissemos: "Não, você não pode."
Acho que meu dever de mãe, e para mim aí mora um enorme prazer, é auxiliar esta descoberta, dentro das possibilidades.
É aquela coisa, a gente renasce mãe.
Quando parei de tentar modificar o outro, e passei a olhar para mim e a modificar o meus olhos e coração notei que as coisas foram ficando mais fáceis.
É uma questão de aceitar a realidade: sou mãe de moleque de dois anos que faz bagunça, não sabe se comportar como adulto, é curioso e grita com estranhos que tocam nele na rua, ele diz não para muitas perguntas quando conhece alguém. Eu o compreendo perfeitamente. E o amo muito por ser assim.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Medéia

Sobre a incapacidade de entender:
Há dias Gabriel está falando uma frase do nada e que parecia indecifrável até pra mim.
Estava traduzindo como: "Eu vi a Medéia", mas me causava certo estranhamento porque Gabriel ainda não leu nenhuma tragédia grega.
Hoje consegui entender. Era só: "Eu tive uma ideia.".
Sério. Respirei aliviada a normalidade do meu filho.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pop star

Entro na padaria com Gabriel. Estou na geladeira pegando suco e ele sentado numa mesa comendo biscoito. Só escuto assim:
- Olha é o Gabriel!
- Ih é o Gabriel!
- Tá sumido hein?!
Sim. Estão se referindo ao meu Gabriel.
Meu filho é tão popular que nem sei...

sábado, 12 de julho de 2014

Educação filial

- Mãe, eu quero ir ali. Eu quero, mãe. Só um pouquinho.
- Gabriel, tem uma palavrinha que a gente usa quando quer as coisas. Qual é?
- Abracadabra?
Tô fazendo um ótimo trabalho.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Gabriel sente sono


- vamos brincar de bola, mãe?
- vamos!
- não quero brincar de bola, mãe!
- tá legal. Quer água?
- não quero água, mãe!
- tá legal. Vou guardar o copo.
- eu quero água, mãe!
- tá legal. Acho que você está com sono. Vamos dormir?
- não quero dormir, mãe! Não quero! Não vou dormir! Vou ficar acordado... Eu não tô com sono...
- tá legal. Gabriel? Gabriel? Gabriel? Ih... Dormiu!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Gabriel viu minhas pintas e resolveu examiná-las.
Pegou sua maleta de médico, olhou e disse:
- Ah não, são muitas pintas!
Eu perguntei:
- É grave doutor?
- Não mãe, não é grave. É pinta!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Primeira carta ao pequeno Gabriel

Gabriel,

Quando eu me imaginava mãe - e acredite muitas foram as vezes que me imaginei - eu sentia uma força imensa me invadir. Fui sendo levada por esta força dia após dia, desejando ser o que ainda não era, até que enfim, eu me tornei mãe. A sua mãe. E quando eu soube desta sua vinda, a força que me invadia vez em quando passou a residir aqui, dentro de mim. Pulsando enérgica e docemente fui sendo embalada pela alegria da sua existência.
Faz um pequeno tempo que você está aqui, comigo, neste mundo, neste tempo, dividindo dores e alegrias, dançando diariamente ao ritmo do nosso som. Embora eu te diga todos os dias o quanto amo sua presença e o quanto lhe sou grata por ser meu filho,
talvez não tenha ainda lhe dito alguns dos meus maiores desejos. Resolvi escrever esta pequena carta, para que você possa crescer e tê-la sempre por perto. Não para seguir meus desejos, mas apenas para saber o quanto sua mãe, com tantos erros, com tantos medos, com tanta vontade lhe desejava.

Por isso filho, começo desejando, que você seja capaz de fazer as suas próprias escolhas. Que elas sejam livres e que em tempo algum você se sinta pressionado a escolher algo contrário do que lhe parece correto e que lhe faz feliz.
Desejo que você, sabendo fazer suas escolhas, saiba também respeitar as escolhas dos outros por quem você passará. Mesmo que elas ao primeiro instante não pareçam positivas para você.
Desejo ainda que quando você estiver diante de uma situação que não lhe agrada e que você não teve escolha, justamente por fazer parte das escolhas de outro, você tenha forças e serenidade para tentar mudar, sem nunca precisar agredir e forçar, e sobretudo pensando em como pode fazer para atender o desejo do outro também. E desta forma, permitir que os outros desejos construam junto a você uma nova realidade.
Desejo com toda a força que você saiba viver e compreenda o valor do coletivo. Não porque você precise agradar as outras pessoas, não porque você precise viver em qualquer molde social. Mas sim, porque desejo que você saiba fazer o bem não só a si.
Na minha imaginação você não tem uma cor ou comida favorita, ou ainda uma profissão já escolhida. Não, na minha imaginação você não tem nada disso.
Quero que saiba que independente de quais sejam as suas escolhas, eu te amarei e estarei ao seu lado. Por mais que elas venham ser escolhas difíceis. Por mais que elas talvez não sejam as minhas escolhas. Não importa. Ainda sim você poderá contar comigo.
Desejo que você se lembre sempre disso: você poderá sempre contar comigo.
Desejo que você tenha muito amor no seu coração. Que você erre e saiba reconhecer. Que você tente e não consiga. Mas que nada disso te faça desistir.
Desejo que você chore de vez em quando e que possa recorrer a mim caso tenha vontade. Mas que também sinta-se livre se em algum momento tiver vontade de recorrer a outro alguém. Estará tudo bem.
Desejo que você ria. Muito. De verdade. Feito criança. E desejo, que sua risada contagie.
Desejo que você saiba dividir, acreditar, somar e perdoar. Inclusive, gostaria que você começasse seus perdões por mim. Afinal, no meio das minhas tentativdas de acerto, já cometi alguns erros com você e acredito que ao longo das nossas vidas cometerei alguns outros. Então, por favor, perdão.
E acima de tudo, desejo com toda a força que reside mim vinda de você, que você seja grato em todos os seus dias. Porque a sua vida está aí, e meu querido, por mais que eu esteja ao seu lado, quem vai vivê-la é você.
Amo você. Imensamente.
Mamãe.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Quem é o foco aqui?


Ao meu ver o papel do adulto é fornecer as crianças um ambiente preparado para que possam usufruir do momento de brincar. Entendo ambiente preparado não como um local repleto de brinquedos à disposição das crianças. Não, para mim isto não é o fundamental. Um ambiente preparado é um local seguro, sem perigos ativos que ameaçem as crianças e preocupem os pais, é um local em que a criança esteja livre para experimentar e que o adulto presente compreenda seu papel dentro deste local e momento. Para tal, este precisa sentir-se relaxado e estar realmente presente, sem se ocupar com distrações cotidianas, como celular, ou conversas paralelas com outros adultos que atrapalhem o verdadeiro ato de brincar. O ambiente preparado oferece estímulos que podem ser variados e simples e por isso extremamente ricos. Neste momento é vital que estejamos focados na criança e que tentemos evitar assuntos fora do presente que possam vir a atrapalhar este momento e interromper o fluxo de experimentação vivenciado. Portanto é necessário que o adulto permaneça o máximo possível em silêncio e atenção plena. É preciso colocar-se no papel de receptor das proposições dos pequenos, deixem a criança dirigir a atividade. Se permita refletir o quanto você tem interferido na brincadeiras dos seus filhos. Há um momento em que nós, os pais, estamos tão envolvidos e felizes de poder passar um tempo de brincadeiras com as crianças, que nos tornamos, de certa forma diretores do ato de brincar e as crianças são os atores desempenhando as funções que estabelecemos. Até que ponto permitimos que as crianças estejam livres o suficiente para sugerir as nossas ações? Diariamente as crianças seguem a rotina que nós criamos, experimentando uma série de pequenas frustrações de suas vontades: existe a hora de acordar, de tomar banho, de ficar na escola, das refeições, etc. Por que na hora de brincar eles estão cumprindo mais uma vez nossas demandas e questões internas? É a vez da criança trabalhar seus medos e questionamentos, nossa interferência apenas interrompe suas descobertas.
Levar a lógica para as brincadeiras também pode não ser a melhor forma de estabelecer contato: Se a criança constrói um enredo de fantasia, dando asas a girafas e carros que soltam bolhas de sabão que fazem cócegas quando encostam em nós, a melhor forma de interagir é mergulhar neste mundo lúdico e não chamar a criança a razão querendo ensinar-lhe algum conteúdo, que sem dúvida ela aprenderá mais ou cedo ou mais tarde. Deixemos que elas fantasiem, deixemos que sejam crianças, deixemos que aproveitem este tempo para criar suas próprias lógicas. Não se torne uma presença diretiva. A brincadeira faz com que as crianças liberem tensões acumuladas de suas rotinas. Por vezes, nós os adultos, introduzimos nas brincadeiras que são na verdade questões não resolvidas para nós. Confiem nas crianças, deixem se levar, deixem que neste momentos elas sejam os líderes. Quando a criança brinca por meio da imaginação ela fortifica sua capacidade de concentração e aprimora conforme pratica sua capacidade de escolha. Dos dois aos seis anos, há um aumento da quantidade de neurônios e brincar se torna ainda mais fundamental, o cérebro vai se esculpindo conforme as experiências vivenciadas pela criança nesta fase.
É preciso confiar nas nossas crianças. Deixá-las livres. Estar presente sim, mas não anular suas presenças com as nossas. Vamos ouvir o que elas tem pra dizer, e não simplesmente fazer com que eles reproduzam o que nós temos a dizer. Se a brincadeira for massinha, o que eles tem a prôpor? Se eles estão pintando deixemos que eles pintem o mar de laranja, isso não trará consequências negativas. Pelo contrário! Se focarmos em dar tempo para que eles criem, então eles criarão. O papel do adulto é intervir o menos possível, é não decidir por eles. Nos coloquemos a disposição caso eles necessitem, estejamos próximos, na altura de seus olhos mas que não falemos mais alto que suas vontades e descobertas. Sejam eles os propositores, e nós? Nós nos permitiremos a mergulhar neste novo mundo de descobertas, para nós mesmo, mas principalmente, para eles.

quinta-feira, 13 de março de 2014

O que meu filho está aprendendo?

Muitos pais costumam se preocupar com o que seus filhos estão aprendendo, e para isso voltam seu olhar para o que está sendo ofertado a ele para que construam desde cedo uma bagagem de conhecimentos pronta para ser acessada no futuro. 
Acredito entretanto, que esta perspectiva pode ser alterada para uma melhor percepção da infância e das suas reais necessidades. A pergunta deveria ser modificada em sua raiz obtendo uma nova finalidade semelhante, sem contudo gerar uma expectiva frustrante nos pais e uma sensação competitiva nas crianças. Deveríamos nos perguntar: Do que meu filho está brincando?
Mas antes, é preciso esclarecer o que podemos chamar de brincadeira. Digo brincadeira, brincadeira mesmo. Dessas que deixam a imaginação voar, para bem longe, num faz-de-conta criado pelos pequenos inventores do novo mundo e sem tantos moldes e referências pregados que só servem para engessar a criatividade que transborda das crianças. Ou ainda, sem tantos estímulos eletrônicos, tão comuns nos dias de hoje e que constróem uma barreira entre pais e filhos, servindo muitas vezes apenas como uma ferramenta de distração prática dos tempos modernos.
É preciso reaprender a brincar! Estamos perdendo o valor deste momento em que pais e filhos se colocam disponíveis um para o outro, onde são estímulados a rir, errar, sonhar e aprender juntos. É só pensar na nossa infância que virá a nossa mente diversas imagens de brincadeiras simples e pueris que nos marcaram de forma tão profunda que trazemos seus estímulos até hoje na vida adulta.
Sem dúvida é na brincadeira que a criança mais aprende e é uma atividade fundamental deste período para expressar e elaborar diversos fatores e conteúdos que foram ofertados no cotidiano desta criança. É uma forma de poder exercitar e recriar modelos que teve a oportunidade de observar na vida prática, numa espécie de ensaio das funções que ocupará futuramente. É desta forma que ela compreende melhor seus sentimentos, relações, corpo e o ambiente que lhe cerca.
Junto com o crescimento da criança, as brincadeiras evoluem e tornam-se ainda mais simbólicas e acompanhadas de relatos verbais repletos de riquezas que falam sobre a personalidade da criança, suas facilidades e dificuldades. É este brincar que facilita o crescimento, portanto é necessário que o adulto esteja preparando para propiciar um ambiente livre, sem pressões e objetivos massificados para serem cumpridos.
Pelo contrário, deve-se respeitar as potencialidades de cada criança, percebendo sua aptidões e ofertando um material seguro para que ela possa se expressar. Quando tolhidas no ato de brincar, as crianças podem levar para a vida adulta uma série de dificuldades motoras e emocionais desnecessárias.
Nenhuma criança é igual a outra. Mais importante do que um aprendizado visando o futuro, uma criança deve brincar para desenvolver sua criatividade, aprender a exteriorizar seus medos, dominar angústias internas normais do desenvolvimento, organizar-se emocionalmente e iniciar um ensaio para suas relações e contatos sociais. É necessário compreender que o universo infantil é composto de um imaginário rico e que sua composição passará necessariamente por todas as brincadeiras e pela arte que lhe foram ofertados.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Bandeira Branca


Conforme-se, todos saberão cuidar do seu filho melhor do que você.
Não importa, quem quer que seja saberá apontar seus erros com maestria.Por vezes, não saberão ao menos o modo correto, mas definitivamente não é o seu.
Conforme-se querida, será assim. Pessoas desconhecidas, familiares bem intencionados e amigos com filho de quinze dias a mais que o seu, todos já passaram por isso. Mesmo os que não tem filho, já passaram, porque conviveram doze horas com o filho do primo de segundo grau daquela tia que é cunhada do sogro da vizinha da cumadre do seu tio-avó.
Quando eu me conformei, foi mais fácil. Senti um peso sair das minhas costas e proclamei em voz alta - Está certo, todos vocês sabem mais que eu, eu compreendo e aceito isso.Não quero competir. Não quero ser a melhor mãe do mundo. 
Não estou acertando em tudo. Não sou melhor que você, nem ao menos tenho esta intenção.Acontece, simplesmente acontece, que este é o meu filho, esta é a minha vida e tudo que existe nela são as minhas escolhas.
Não sou "menas main", você também não é, que fique bem claro.Nada, absolutamente nada que eu faço com o meu filho dentro e fora da minha casa visa afrontar você.Aliás eu raramente penso em você, não porque não te considere uma pessoa sensacional, mas simplesmente porque me falta tempo e foco, estou totalmente voltada para esta criança, para estas opções e para remendar os erros que cometo diariamente tentando acertar.
Eu tenho plena consciência que nossos filhos e vivências são totalmente diferentes, porque nós todos somos indivíduos diferentes.
Não estou aqui para julgar, não é uma guerra, não é uma competição, não estamos brigando para criar o melhor filho do mundo. 
Estamos vivendo, dia após dia vivendo, da forma que dá, mas principalmente da forma que nos faz deitar a cabeça e dormir as poucas horas de sono que a vida materna nos permite.
Eu parei de lutar, eu parei de tentar provar pra você ou para mim mesma que estou no caminho certo. Eu não sei qual é o caminho certo. Eu nem ao menos suspeito dele. 
Eu estou fazendo o que meu coração manda. De verdade, eu aprendi a ouvir meu coração, tem coisas que ele me deixa fazer, outras não. 
Não me culpo, não se culpe também, estamos tentando.
Fonte: Pinterest

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Bordões Maternos

Para mim, ser mãe é uma oportunidade de revisitar tudo que eu sou e fui até aqui.
É uma nova chance de olhar por um outro prisma, com mais calma e serenidade e tentar fazer diferente.
Não estou falando sobre "certos" e "errados" universais, se é que eles existem. Estou falando sobre o que é certo para mim. O que me deixa tranqüila e confortável e condiz com o que acredito e desejo para minha vida.
Quando falo com meu filho sinto o amor emanar. Muitas vezes estou sem paciência, cansada ou frustrada por questões que vão muito além da maternidade. Nestes momentos eu preciso me esforçar imensamente para não canalizar estas questões negativas no meu filho e na minha relação com ele.
Eu tenho grande dificuldade nisso. É um exercício diário onde coloco muito esforço e vontade. Nem sempre eu consigo, mas continuo tentando.
Muitas coisas me oprimem na vida cotidiana e eu tento não usar o meu filho como escape, pelo simples fato dele ser pequeno, depender de mim, me amar profundamente e tudo isso exigir meu tempo, disposição e empenho.
Pelo contrário, tento fazer a nossa relação se tornar uma alavanca que me jogue ainda mais alto e que de mãos dadas com ele eu possa ultrapassar qualquer questão pequena. Sim, porque todas essas questões tornam-se pequenas frente a ele.
Digo tudo isto, porque rodou na internet uma série de dez cartazes com as frases mais ditas pelas mães, numa já cansativa ideia de que: "Mãe é tudo igual".
Queria dizer que não, mãe não é tudo igual. Conheço muitas mães, apesar de compartilharem algumas questões, elas são infinitamente heterogêneas em seus pensamentos, questões, emoções e principalmente realidades.
Antes de ir além, esclareço sobre as frases:
Sim, eu ouvi muitas destas frases da minha mãe. Sim, eu sei que ela me ama. Sim, eu também a amo muito. Sim, eu sobrevivi. Sim, eu sou uma pessoa feliz.
Apesar de serem frases comuns na educação de muitos de nós e de não ter aparentemente nenhuma maldade explícita contida nelas, apenas uma vontade materna de educar e fornecer limites ao filho, é necessário verificar e perceber um registro opressor nelas e acredito (realmente acredito) que existam outras formas de diálogo numa relação mãe/filho, pai/filho, cuidador/filho que podem levar ao mesmo resultado, estas formas possam talvez parecer mais cansativas, ou sem um resultado imediato e com certeza também podem ser muito criticadas por parentes, vizinhos ou transeuntes que nada tem a ver com sua vida, mas sem dúvidas elas podem levar a um outro estágio de comunicação, elas podem abrir canais diretos e afetivos, elas são resultado de uma relação de respeito, onde vemos a criança como um ser igualmente merecedor de voz e espaço.
(Fonte: Google Imagens)

Pensando nisso, tentei perceber algumas das frases que eu procuro usar na minha casa com o meu filho. Onde procuro ser otimista, ter confiança no desempenho dele e onde me coloco sempre disponível para ajuda-lo se ele manifesta precisar de ajuda. São elas:

1) Siga seu ritmo. Não se apresse.
2) Eu te entendo.
3) Respire fundo.
4) Você precisa de ajuda?
5) Grande amigos se ajudam e nós somos também grandes amigos.
6) Tente falar o que houve para que eu possa te ajudar.
7) Estamos juntos nessa.
8) Você consegue. Acredite em você! Eu acredito!
9) Me dá um abraço bem forte, quem sabe não melhora?!
10) Não desista e continue tentando.


Não estou querendo usar estas frases como verdades absolutas ou fabricar uma receita de bolo. Como disse anteriormente: cada mãe é uma, cada filho é um e principalmente cada relação se faz única. Cada um sabe de si, onde o calo aperta e o que precisa para sua vida.
O que quero aqui é fazer um convite, para que eu e você reavaliemos algumas das frases utilizadas no corriqueiro dia a dia, que podem até não traumatizar uma criança ou criar pequenos monstros mas que podem cercear as manifestações emotivas da criança.
O que eu não quero fazer aqui é dizer que você é uma péssima mãe por usar as frases no seu dia a dia. Eu entendo o seu uso, eu entendo de coração você, eu entendo a repetição desses modelos e eu acredito que eles possam dar resultados, mas eu realmente acho que podemos tentar uma outra forma. Quem sabe em doses homeopáticas? Eu falho, você também vai falhar, mas aí a gente usa uma das frases que usamos com as crianças. "Não desista e continue tentando".

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Transformação

Tem uma frase do Nelson Rodrigues que não tem saído da minha cabeça nos últimos dois anos: 
“Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina quando tem um filho melhora." 
Tirando os casos extremos e dramáticos de mães tenebrosas que sempre tem alguém pra contar, eu tendo a concordar integralmente com ele. 
A maternidade é uma transformação. 
Sinto-me transformada da cabeça aos pés numa velocidade vertiginosa que quase nem eu mesma consigo acompanhar.
A primeira delas foi porque me descobri capaz. E capacidade é uma competência que sempre nos deixa feliz.
Conheci um amor pleno, que não espera retribuições. Logo eu, que sempre fui de esperá-las.
Aprendi a confiar em mim mesma, e a ouvir os sussuros de uma certa voz interior ancestral que me lembra sempre do meu título de fêmea, bicho, mãe, feroz.
Ganhei força. Força para nadar contra a maré, para defender o que eu acredito, força para falar, incessantemente falar sobre ser mãe, sobre educar, sobre criar um mundo melhor para nossos filhos e filhos melhores para o nosso mundo.
Sim, estou transformada.

(Fonte: Pinterest)

Quando vou me apresentar em algum lugar tenho dificuldades de não dizer todas as vezes - Sou Débora, atriz, professora de teatro, mas principalmente - e me desculpem as minhas outras paixões- sou mãe.
Tudo isso num tom desesperado de confissão e súplica de que me entendam, por favor, terei de falar sobre uma das minha militâncias maternas no meio da nossa conversa.
Ser mãe é se jogar abismo abaixo confiando no amor.
É não ter tempo para pensamentos negativos, para amores rasos, para amizades superficiais... É aprender a deixar ir tudo aquilo que nos atrasa, que retém, para enfim tentar ir além, porque agora, eu sou o além.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Uma mãe em adaptação

Ser mãe dói, não sei se já te contaram, mas em mim dói.
Dói porque é tanto amor que não cabe dentro, então dia após dia, parece que estamos dilatando a alma para tentar dar conta. Mas não damos.
Dói porque nem sempre tudo é como gostaríamos que fosse.
Eu e você já compreendemos e aceitamos este fato, e digamos, que estamos lidando bem com esta verdade ao longo de nossas vidas.
O que pode ser mudado, lutamos. O que não pode, nos adaptamos.
Mas os nossos filhos, esses ainda não sabem.
E bem-vindos a realidade: As mães costumam ser um dos responsáveis por dizer isto a um filho.
- Meu filho, nem tudo será como gostaríamos. Mas seja como for, estaremos juntos.
Meu filho não quer um monte de coisas. E do fundo do meu coração, eu o entendo.
Por vezes eu também não quero. Não quero tomar banho na hora que preciso, não quero dormir na hora que tenho, não quero comer aquela comida que faço, não quero arrumar a casa, não quero ficar longe de quem eu amo, mas eu sei o motivo maior de estar fazendo essas coisas todas que eu não quero fazer.
Ouvi uma vez uma pessoa que ia ficar com o Gabriel para que eu trabalhasse, dizendo:
- Mamãe vai trabalhar, para ganhar dinheiro e comprar presente para você!
Eu tive voltar correndo para explicar para ele e para a pessoa.
- Não, não é isso. Eu vou trabalhar porque também amo o meu trabalho. Vou aprender coisas bacanas para brincarmos juntos e isso será um presente em nossas vidas!
Eu entendo o meu filho. Eu também não ia querer ficar longe da minha mãe. Ela me abraça forte mesmo quando estou errada e tenta me ajudar a remendar meus erros. Eu tento fazer o mesmo com o meu filho.
Então, mesmo com o coração doendo, eu preciso que meu filho compreenda que por vezes as coisas não serão como ele gostaria, mas isso não faz que elas não sejam especiais ao seu modo.
Hoje eu me senti um tanto cruel quando deixei meu filho na escola e segui para o meu dia, mas é preciso compreender: é difícil para nós dois. Então eu desejo força as mães, para que possamos medir os "nãos" e dizê-los com segurança e amor. E que depois deles possamos abraçar as nossas crias e estar com elas mesmo depois que nos despedirmos. De uma mãe em adaptação.