segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Carta ao menino que dorme fora de casa

Gabriel,

Preciso realmente que você preste bastante atenção no que será dito aqui. Tento, embora possa não parecer para uns ou outros, mas tento, não ser uma destas mães enlouquecidas que aprisionam a cria só para si, privando-as de viver outras experiências longe de sua proteção.
Entretanto, acho que estou cometendo alguns erros nesta minha ousada tentativa.
Posso citar exemplos dolorosos:
Hoje, você não dormirá em casa. Foi na festa da sua prima, e pela distância e horário ficará na casa da vovó. Não sei se você está preparado para tal. Não posso afirmar. Mas sem dúvidas, posso dizer, com uma rara certeza adquirida para os assuntos da vida, de que eu, definitivamente, eu não estou preparada para tal.
Sinto saudade de você em cada canto vazio desta casa. Tem silêncio e espaço demais. Tem brinquedos seus esparramados pelo chão e tenho vontade de beijar todos, um a um, sem exceção, inclusive os dinoussauros e aqueles ratinhos tenebrosos, só porque esta manhã você esteve brincando com eles.
Aliás, não me venha com chorumelas, vou dormir com todos os seus ursinhos hoje. Não quero saber de você reclamando que vai ter dividir. Sua hora chegou, molequinho. Não quer ser independente pra dormir na casa da vovó e comer cachorro quente? Pois bem. George, Peppa Pig e cia, Pocoyo, Mickey Mouse, Sansão e até o Ted... Isso mesmo... deguste este nome: T-E-D. Vão dormir na cama comigo esta noite. Vou abraçar, babar, cheirar cada um deles... pensando em você.
Pensando em como minha vida se preencheu com sua chegada, em como meus dias ficaram mais cansativos, ou em como descobri que consigo resolver oito problemas em meia hora, ou ainda, em como tudo mudou dentro de mim, e fora também, no meu corpo, e como não me importo com isso, porque essas mudanças sinalizam que algo verdadeiro e intenso existe no meu caminho. Vou estar pensando que hoje sei, que não preciso de mais nada para ser feliz, a felicidade está aqui dentro de mim, dentro de você, na nossa convivência, nos nossos encontros, e nas nossas descobertas.
Vou pensar que você me ensinou a ter coragem de enfrentar o que me amedronta. A pedir ajuda quando acho que precisaremos dela. Mas a pensar duas (ou três, ou quatro) se realmente precisamos dela. Vou pensar que não tenho medo de escuro ou de vento forte quando você está aqui. Vou pensar que sinto sua falta sempre após um minuto longe, mas que aprendo a conviver com ela. Riu, conto piadas, aconselho, sigo a vida, mas sempre com a certeza de que voltarei para algo maior.
Então por favor, escute bem este meu pedido.
Cresça, seja grande, viva sua vida, plenamente, mas vai fazendo tudo isso bem devagarzinho, bem em doses homeopáticas aproveitando as belezas de cada fase, vai ver que assim eu vou crescendo junto. Pode ser?

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