terça-feira, 6 de maio de 2014

Quem é o foco aqui?


Ao meu ver o papel do adulto é fornecer as crianças um ambiente preparado para que possam usufruir do momento de brincar. Entendo ambiente preparado não como um local repleto de brinquedos à disposição das crianças. Não, para mim isto não é o fundamental. Um ambiente preparado é um local seguro, sem perigos ativos que ameaçem as crianças e preocupem os pais, é um local em que a criança esteja livre para experimentar e que o adulto presente compreenda seu papel dentro deste local e momento. Para tal, este precisa sentir-se relaxado e estar realmente presente, sem se ocupar com distrações cotidianas, como celular, ou conversas paralelas com outros adultos que atrapalhem o verdadeiro ato de brincar. O ambiente preparado oferece estímulos que podem ser variados e simples e por isso extremamente ricos. Neste momento é vital que estejamos focados na criança e que tentemos evitar assuntos fora do presente que possam vir a atrapalhar este momento e interromper o fluxo de experimentação vivenciado. Portanto é necessário que o adulto permaneça o máximo possível em silêncio e atenção plena. É preciso colocar-se no papel de receptor das proposições dos pequenos, deixem a criança dirigir a atividade. Se permita refletir o quanto você tem interferido na brincadeiras dos seus filhos. Há um momento em que nós, os pais, estamos tão envolvidos e felizes de poder passar um tempo de brincadeiras com as crianças, que nos tornamos, de certa forma diretores do ato de brincar e as crianças são os atores desempenhando as funções que estabelecemos. Até que ponto permitimos que as crianças estejam livres o suficiente para sugerir as nossas ações? Diariamente as crianças seguem a rotina que nós criamos, experimentando uma série de pequenas frustrações de suas vontades: existe a hora de acordar, de tomar banho, de ficar na escola, das refeições, etc. Por que na hora de brincar eles estão cumprindo mais uma vez nossas demandas e questões internas? É a vez da criança trabalhar seus medos e questionamentos, nossa interferência apenas interrompe suas descobertas.
Levar a lógica para as brincadeiras também pode não ser a melhor forma de estabelecer contato: Se a criança constrói um enredo de fantasia, dando asas a girafas e carros que soltam bolhas de sabão que fazem cócegas quando encostam em nós, a melhor forma de interagir é mergulhar neste mundo lúdico e não chamar a criança a razão querendo ensinar-lhe algum conteúdo, que sem dúvida ela aprenderá mais ou cedo ou mais tarde. Deixemos que elas fantasiem, deixemos que sejam crianças, deixemos que aproveitem este tempo para criar suas próprias lógicas. Não se torne uma presença diretiva. A brincadeira faz com que as crianças liberem tensões acumuladas de suas rotinas. Por vezes, nós os adultos, introduzimos nas brincadeiras que são na verdade questões não resolvidas para nós. Confiem nas crianças, deixem se levar, deixem que neste momentos elas sejam os líderes. Quando a criança brinca por meio da imaginação ela fortifica sua capacidade de concentração e aprimora conforme pratica sua capacidade de escolha. Dos dois aos seis anos, há um aumento da quantidade de neurônios e brincar se torna ainda mais fundamental, o cérebro vai se esculpindo conforme as experiências vivenciadas pela criança nesta fase.
É preciso confiar nas nossas crianças. Deixá-las livres. Estar presente sim, mas não anular suas presenças com as nossas. Vamos ouvir o que elas tem pra dizer, e não simplesmente fazer com que eles reproduzam o que nós temos a dizer. Se a brincadeira for massinha, o que eles tem a prôpor? Se eles estão pintando deixemos que eles pintem o mar de laranja, isso não trará consequências negativas. Pelo contrário! Se focarmos em dar tempo para que eles criem, então eles criarão. O papel do adulto é intervir o menos possível, é não decidir por eles. Nos coloquemos a disposição caso eles necessitem, estejamos próximos, na altura de seus olhos mas que não falemos mais alto que suas vontades e descobertas. Sejam eles os propositores, e nós? Nós nos permitiremos a mergulhar neste novo mundo de descobertas, para nós mesmo, mas principalmente, para eles.

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