Tenho
repetido uma espécie de mantra materno incessantemente, todas as vezes
que me deparo com uma situação, que para mim, se mostra difícil.
"As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho."
Digo isso baixinho quantas vezes forem necessárias a fim de que me
querido cérebro, compreenda que eu não preciso perpetuar os meus medos,
os meus anseios ou as minhas inseguranças nessa criança.
Sinto que para isso, é preciso que eu me permita sair do foco das
vivências que não são as minhas. Digo permitir, porque acredito que não
ser o foco, mesmo quando se trata de nossos filhos, é muito difícil.
As questões íntimas mais verdadeiras me parecem gostar de estar sempre em primeiro plano.
Portanto, quando o meu filho precisa viver uma nova experiência, é
normal que eu crie internamente uma série de expectativas em relação a
ela. Acontece que não me parece saudável que eu, transmita todas essas
expectativas que são exclusivamente minhas, a ele. Impedindo que ele,
por sua vez, crie as suas próprias expectativas, livre de qualquer
persuasão materna e no sentido contrário, transmita, essas sim na sua
real importância, a mim.
Este me parece ser o sentido correto que essas situações devem ter.
Ao longo dos dias passaremos, meu filho e eu, por situações que me são
desconfortáveis. A questão é como não permitir que este desconforto seja
levado a vivência da criança. Como não temer a situação que lhe causa
angústia quando ela é vivenciada pelo ser que você mais devota amor.
Para mim, esta tem sido uma das mais difíceis experiências deste mundo materno.
Nada, absolutamente nada, sugere que meu filho precise sentir, como eu senti e ver dificuldades onde eu vi.
Se tenho medo de altura. Ok. Que chato pra mim. Se ele se coloca no
mais alto degrau e diz que quer pular. Por que, diabos, eu, logo eu,
deveria manifestar todo o meu receio neste pulo? Não sou eu que estou
pulando. Não é ele que tem medo.
Ao contrário, acredito que devo me
colocar a disposição dele, para ouvir o que ele deseja neste pulo. O que
este salto representa para ele. O que está altura significa para os
limites dele.
Numa total disposição, de assegurar seu bem-estar, mas não boicotar sua coragem.
Mães e filhos estão totalmente ligados e alterações que parecem
imperceptíveis para os outros, são notadas com maestria por ambos os
envolvidos nesta relação.
Meu filho sabe quando eu tenho medo. Sabe
melhor do que ninguém. Por mais que verbalmente isso não tenha sido
dito. Meu filho sabe quando me sinto enfraquecida. Por mais que o mundo
não veja. Eu sei que ele sabe. Eu sei que ele conhece meu rosto, e a
forma que falo com ele transmite tudo o que se passa dentro de mim.
Tenho tentando trabalhar muito isso. Tenho tentado me fortalecer. Tenho
tentado buscar dentro mim coragem, quando essa me falta. Tenho tentado
não me entristecer com o que não vale a pena.
Mas ainda tenho alguns
grandes medo. O maior deles, sem dúvida, é o fantasmagórico medo que
tomou conta de mim há quase três anos e meio, de que algo aconteça ao
meu filho. Eu sei que ele sabe disso. Eu nunca o assustei e nem
dramatizei para ele este meu medo. Entretanto, quando algo acontece com
ele: um tombo, ou quando adoece, ou quando eu o perco de vista por
alguns segundos, ou quando ele larga minha mão e corre num espaço
público, eu sei que meu centímetro do meu corpo denuncia o medo que eu
sinto, meu tom de voz denuncia, meu coração acelerado denuncia e sei que
mais que tudo isso, quando eu o abraço e pergunto se está tudo bem, ele
tem a certeza de que aquilo me afetou.
Isso é algo que eu não consigo controlar. Não sei, ao menos, se devo controlar.
Sim Gabriel, eu lhe amo mais do que cabe em mim. E é esse amor, esse
medo de lhe perder, esta angústia de não lhe apoiar, que me faz querer
ver você correndo os seus riscos. Sempre irei fazer tudo que eu puder
conceber para que você fique bem. Sinceramente não desejo que você
carregue consigo os mesmo medos que carrego comigo.
Para isso, ando me permitindo temer, respirar e deixar você seguir.
Deixando você construir sua coragem, suas vontades, tenho tentado, de
coração aberto, deixar que você seja livre, que você se machuque e que
continue apesar das dores que vai acumular.
Desejo que você escreva a
sua história, baseado nos seus sentimentos, que eu seja sim, referência
de apoio, mas que as minhas dores continuem sendo apenas minhas.

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