quinta-feira, 24 de julho de 2014

As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho

Tenho repetido uma espécie de mantra materno incessantemente, todas as vezes que me deparo com uma situação, que para mim, se mostra difícil.
"As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho."
Digo isso baixinho quantas vezes forem necessárias a fim de que me querido cérebro, compreenda que eu não preciso perpetuar os meus medos, os meus anseios ou as minhas inseguranças nessa criança.
Sinto que para isso, é preciso que eu me permita sair do foco das vivências que não são as minhas. Digo permitir, porque acredito que não ser o foco, mesmo quando se trata de nossos filhos, é muito difícil.
As questões íntimas mais verdadeiras me parecem gostar de estar sempre em primeiro plano.
Portanto, quando o meu filho precisa viver uma nova experiência, é normal que eu crie internamente uma série de expectativas em relação a ela. Acontece que não me parece saudável que eu, transmita todas essas expectativas que são exclusivamente minhas, a ele. Impedindo que ele, por sua vez, crie as suas próprias expectativas, livre de qualquer persuasão materna e no sentido contrário, transmita, essas sim na sua real importância, a mim.
Este me parece ser o sentido correto que essas situações devem ter.
Ao longo dos dias passaremos, meu filho e eu, por situações que me são desconfortáveis. A questão é como não permitir que este desconforto seja levado a vivência da criança. Como não temer a situação que lhe causa angústia quando ela é vivenciada pelo ser que você mais devota amor.
Para mim, esta tem sido uma das mais difíceis experiências deste mundo materno.
Nada, absolutamente nada, sugere que meu filho precise sentir, como eu senti e ver dificuldades onde eu vi.
Se tenho medo de altura. Ok. Que chato pra mim. Se ele se coloca no mais alto degrau e diz que quer pular. Por que, diabos, eu, logo eu, deveria manifestar todo o meu receio neste pulo? Não sou eu que estou pulando. Não é ele que tem medo.
Ao contrário, acredito que devo me colocar a disposição dele, para ouvir o que ele deseja neste pulo. O que este salto representa para ele. O que está altura significa para os limites dele.
Numa total disposição, de assegurar seu bem-estar, mas não boicotar sua coragem.
Mães e filhos estão totalmente ligados e alterações que parecem imperceptíveis para os outros, são notadas com maestria por ambos os envolvidos nesta relação.
Meu filho sabe quando eu tenho medo. Sabe melhor do que ninguém. Por mais que verbalmente isso não tenha sido dito. Meu filho sabe quando me sinto enfraquecida. Por mais que o mundo não veja. Eu sei que ele sabe. Eu sei que ele conhece meu rosto, e a forma que falo com ele transmite tudo o que se passa dentro de mim.
Tenho tentando trabalhar muito isso. Tenho tentado me fortalecer. Tenho tentado buscar dentro mim coragem, quando essa me falta. Tenho tentado não me entristecer com o que não vale a pena.
Mas ainda tenho alguns grandes medo. O maior deles, sem dúvida, é o fantasmagórico medo que tomou conta de mim há quase três anos e meio, de que algo aconteça ao meu filho. Eu sei que ele sabe disso. Eu nunca o assustei e nem dramatizei para ele este meu medo. Entretanto, quando algo acontece com ele: um tombo, ou quando adoece, ou quando eu o perco de vista por alguns segundos, ou quando ele larga minha mão e corre num espaço público, eu sei que meu centímetro do meu corpo denuncia o medo que eu sinto, meu tom de voz denuncia, meu coração acelerado denuncia e sei que mais que tudo isso, quando eu o abraço e pergunto se está tudo bem, ele tem a certeza de que aquilo me afetou.
Isso é algo que eu não consigo controlar. Não sei, ao menos, se devo controlar.
Sim Gabriel, eu lhe amo mais do que cabe em mim. E é esse amor, esse medo de lhe perder, esta angústia de não lhe apoiar, que me faz querer ver você correndo os seus riscos. Sempre irei fazer tudo que eu puder conceber para que você fique bem. Sinceramente não desejo que você carregue consigo os mesmo medos que carrego comigo.
Para isso, ando me permitindo temer, respirar e deixar você seguir.
Deixando você construir sua coragem, suas vontades, tenho tentado, de coração aberto, deixar que você seja livre, que você se machuque e que continue apesar das dores que vai acumular.
Desejo que você escreva a sua história, baseado nos seus sentimentos, que eu seja sim, referência de apoio, mas que as minhas dores continuem sendo apenas minhas.




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