quarta-feira, 23 de julho de 2014

A segunda carta para o Gabriel

Gabriel,

Sou sua mãe e não sou feliz o tempo inteiro. Estou com isso entalado na garganta faz um tempo. As mães não são felizes em tempo integral. Não são seres supremos que não se abalam. Elas são um monte de outras coisas que não só mães.
Preciso te dizer isso, porque quando eu era criança eu achava que devia trazer a felicidade ao mundo. Achava que minha mãe, o ser principal do meu mundo, não devia se entristecer e encarava este como um dos meus deveres. Mas ela se entristecia. E mesmo eu, depois que você chegou na minha vida, continuo me entristecendo de vez em quando. O fantástico disso tudo é que não faz parte dos deveres dos filhos não permitir que isso aconteça, faz parte dos direitos das mães se permitir isso.
Portanto, tá aí a grande verdade: eu não sou feliz o tempo inteiro. Tem dias que acordo e quero ficar na cama. Não acho graça de todas as piadas. As vezes sinto que estou errando mais do que acertando. Em alguns momentos penso se fiz as escolhas corretas. Mas nada, absolutamente nada disso coloca em cheque o meu amor e realização por ter você na minha vida. Eu te amo e talvez seja isso um dos fatos que me tornam tão humana.
Não quero que você cresça achando que a felicidade é algo contínuo e permanente. Não quero que você cresça pensando que se permitir entristecer significa uma aceitação da infelicidade, ou atestado de qualquer outra coisa. A felicidade não está em lugar nenhum. Está aqui dentro de mim e de você. Felicidade está nos pequenos momentos. E para mim está em dormir barriga com barriga com você, está em subir no palco, comer pizza ou fazer bolinhos. Nunca se esqueça disso: a minha felicidade está em mim e por favor deixa-a continuar. Você não é o responsável por ela, por mais que suas ações tenham grande influência em mim, eu estou aqui dizendo para você que não tenho nenhuma expectativa de ser feliz o tempo todo. Eu ainda quero poder chorar. Eu ainda tenho medo e sonhos. Eu não sei todas as respostas e saber que nunca vou tê-las, por vezes me assusta.
Ser mãe me fez feliz, e me faz, e muito. Mas às vezes estou bem cansada e só quero um bom banho e dormir. E adivinhe só, você pode dormir tranquilo, seguir sua vida sem nenhum tipo de responsabilidade por isso. Porque você e eu somos indivíduos diferentes. Porque você é livre para sentir. E eu também.
Façamos um acordo: nos amamos muito, temos muito alegria e gratidão pelo nosso encontro nesta vida, mas as nossas vidas não se resume só a nós dois. E que bom que seja assim, meu amor!

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