quinta-feira, 24 de julho de 2014

Lagarta, mamãe e Gabriel

Estávamos eu e Gabriel saindo de casa. Ele apontou pro chão e disse:
- Olha uma lagarta.
Olhei e não tive certeza se era mesmo uma lagarta. Mas se fosse, era uma senhora lagarta. Grande e gorda. Linda. Multicolorida. E que rastejava em velocidade vertiginosa.
Claro que o que minha maturidade permitiu foi pegar a criança, pular a lagarta e correr metros. Ele ria.
Parei de correr. Coloquei o moleque no chão.
Três minutos depois ele pede:
- Me dá colo.
Dei com esforço.
- Agora corre mamãe!
- Gabriel, você tá pesado. Não dá pra correr.
Ele em silêncio. Senti que algo estava sendo planejado naquela cabecinha.
Não deu outra:
- Olha mãe! Corre! A lagarta tá vindo.
E riu com vontade.

As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho

Tenho repetido uma espécie de mantra materno incessantemente, todas as vezes que me deparo com uma situação, que para mim, se mostra difícil.
"As minhas experiências não precisam ser as experiências do meu filho."
Digo isso baixinho quantas vezes forem necessárias a fim de que me querido cérebro, compreenda que eu não preciso perpetuar os meus medos, os meus anseios ou as minhas inseguranças nessa criança.
Sinto que para isso, é preciso que eu me permita sair do foco das vivências que não são as minhas. Digo permitir, porque acredito que não ser o foco, mesmo quando se trata de nossos filhos, é muito difícil.
As questões íntimas mais verdadeiras me parecem gostar de estar sempre em primeiro plano.
Portanto, quando o meu filho precisa viver uma nova experiência, é normal que eu crie internamente uma série de expectativas em relação a ela. Acontece que não me parece saudável que eu, transmita todas essas expectativas que são exclusivamente minhas, a ele. Impedindo que ele, por sua vez, crie as suas próprias expectativas, livre de qualquer persuasão materna e no sentido contrário, transmita, essas sim na sua real importância, a mim.
Este me parece ser o sentido correto que essas situações devem ter.
Ao longo dos dias passaremos, meu filho e eu, por situações que me são desconfortáveis. A questão é como não permitir que este desconforto seja levado a vivência da criança. Como não temer a situação que lhe causa angústia quando ela é vivenciada pelo ser que você mais devota amor.
Para mim, esta tem sido uma das mais difíceis experiências deste mundo materno.
Nada, absolutamente nada, sugere que meu filho precise sentir, como eu senti e ver dificuldades onde eu vi.
Se tenho medo de altura. Ok. Que chato pra mim. Se ele se coloca no mais alto degrau e diz que quer pular. Por que, diabos, eu, logo eu, deveria manifestar todo o meu receio neste pulo? Não sou eu que estou pulando. Não é ele que tem medo.
Ao contrário, acredito que devo me colocar a disposição dele, para ouvir o que ele deseja neste pulo. O que este salto representa para ele. O que está altura significa para os limites dele.
Numa total disposição, de assegurar seu bem-estar, mas não boicotar sua coragem.
Mães e filhos estão totalmente ligados e alterações que parecem imperceptíveis para os outros, são notadas com maestria por ambos os envolvidos nesta relação.
Meu filho sabe quando eu tenho medo. Sabe melhor do que ninguém. Por mais que verbalmente isso não tenha sido dito. Meu filho sabe quando me sinto enfraquecida. Por mais que o mundo não veja. Eu sei que ele sabe. Eu sei que ele conhece meu rosto, e a forma que falo com ele transmite tudo o que se passa dentro de mim.
Tenho tentando trabalhar muito isso. Tenho tentado me fortalecer. Tenho tentado buscar dentro mim coragem, quando essa me falta. Tenho tentado não me entristecer com o que não vale a pena.
Mas ainda tenho alguns grandes medo. O maior deles, sem dúvida, é o fantasmagórico medo que tomou conta de mim há quase três anos e meio, de que algo aconteça ao meu filho. Eu sei que ele sabe disso. Eu nunca o assustei e nem dramatizei para ele este meu medo. Entretanto, quando algo acontece com ele: um tombo, ou quando adoece, ou quando eu o perco de vista por alguns segundos, ou quando ele larga minha mão e corre num espaço público, eu sei que meu centímetro do meu corpo denuncia o medo que eu sinto, meu tom de voz denuncia, meu coração acelerado denuncia e sei que mais que tudo isso, quando eu o abraço e pergunto se está tudo bem, ele tem a certeza de que aquilo me afetou.
Isso é algo que eu não consigo controlar. Não sei, ao menos, se devo controlar.
Sim Gabriel, eu lhe amo mais do que cabe em mim. E é esse amor, esse medo de lhe perder, esta angústia de não lhe apoiar, que me faz querer ver você correndo os seus riscos. Sempre irei fazer tudo que eu puder conceber para que você fique bem. Sinceramente não desejo que você carregue consigo os mesmo medos que carrego comigo.
Para isso, ando me permitindo temer, respirar e deixar você seguir.
Deixando você construir sua coragem, suas vontades, tenho tentado, de coração aberto, deixar que você seja livre, que você se machuque e que continue apesar das dores que vai acumular.
Desejo que você escreva a sua história, baseado nos seus sentimentos, que eu seja sim, referência de apoio, mas que as minhas dores continuem sendo apenas minhas.




quarta-feira, 23 de julho de 2014

A segunda carta para o Gabriel

Gabriel,

Sou sua mãe e não sou feliz o tempo inteiro. Estou com isso entalado na garganta faz um tempo. As mães não são felizes em tempo integral. Não são seres supremos que não se abalam. Elas são um monte de outras coisas que não só mães.
Preciso te dizer isso, porque quando eu era criança eu achava que devia trazer a felicidade ao mundo. Achava que minha mãe, o ser principal do meu mundo, não devia se entristecer e encarava este como um dos meus deveres. Mas ela se entristecia. E mesmo eu, depois que você chegou na minha vida, continuo me entristecendo de vez em quando. O fantástico disso tudo é que não faz parte dos deveres dos filhos não permitir que isso aconteça, faz parte dos direitos das mães se permitir isso.
Portanto, tá aí a grande verdade: eu não sou feliz o tempo inteiro. Tem dias que acordo e quero ficar na cama. Não acho graça de todas as piadas. As vezes sinto que estou errando mais do que acertando. Em alguns momentos penso se fiz as escolhas corretas. Mas nada, absolutamente nada disso coloca em cheque o meu amor e realização por ter você na minha vida. Eu te amo e talvez seja isso um dos fatos que me tornam tão humana.
Não quero que você cresça achando que a felicidade é algo contínuo e permanente. Não quero que você cresça pensando que se permitir entristecer significa uma aceitação da infelicidade, ou atestado de qualquer outra coisa. A felicidade não está em lugar nenhum. Está aqui dentro de mim e de você. Felicidade está nos pequenos momentos. E para mim está em dormir barriga com barriga com você, está em subir no palco, comer pizza ou fazer bolinhos. Nunca se esqueça disso: a minha felicidade está em mim e por favor deixa-a continuar. Você não é o responsável por ela, por mais que suas ações tenham grande influência em mim, eu estou aqui dizendo para você que não tenho nenhuma expectativa de ser feliz o tempo todo. Eu ainda quero poder chorar. Eu ainda tenho medo e sonhos. Eu não sei todas as respostas e saber que nunca vou tê-las, por vezes me assusta.
Ser mãe me fez feliz, e me faz, e muito. Mas às vezes estou bem cansada e só quero um bom banho e dormir. E adivinhe só, você pode dormir tranquilo, seguir sua vida sem nenhum tipo de responsabilidade por isso. Porque você e eu somos indivíduos diferentes. Porque você é livre para sentir. E eu também.
Façamos um acordo: nos amamos muito, temos muito alegria e gratidão pelo nosso encontro nesta vida, mas as nossas vidas não se resume só a nós dois. E que bom que seja assim, meu amor!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nascer mãe

Quando eu decidi que meu filho nascesse, eu não esperava que haveria um outro grande nascimento nesta decisão. O meu.
Eu não sei nada sobre filhos. Mas sei mais do que qualquer um sobre o meu. E ainda sim, o meu filho, este ser humano já complexo ainda me deixa sem saber o tanto que eu gostaria.
Durante algum tempo tentei apenas prever alguns dos seus comportamentos, a fim de que eu pudesse evitá-los. Na maior parte das vezes, eu desejava com isso, me poupar do que eu acreditava (ou ao longo dos anos fui sendo convencida) de que era constrangedor.
Em estado de alerta me mantive, para por exemplo evitar que ele pegasse algum objeto perigoso, ou que ele agisse "fora dos padrões" enquanto eu fazia as compras do mês no supermercado lotado.
Chegou um momento em que eu parei de tentar apenas prever, porque isso me consumia uma energia não necessária e além do que, me afastava de estar presente e numa real troca com ele. Foi então que comecei a tentar compreender as ações ao invés apenas de evitar que elas fossem postas em prática.
Percebi então que na maior parte das vezes eu não deveria estar tentando modificar o meu filho e sim o foco da minha atividade.
Não é uma receita, é apenas uma experiência. Como disse, não entendo de filhos, entendo do meu, e olhe lá. Mas é isso, cada pai/mãe é o maior conhecedor do seu próprio filho.
Mas para mim, não é o meu filho que deve notar os objetos de perigo e não se aproximar deles. São os objetos de perigo que devem sair de perto dele. Aos poucos ele aprenderá a reconhece-los e eles poderão voltar ao seu lugar na minha casa. Mas a casa é do meu filho e não da decoração.
É claro que muitas vezes as crianças estão ao nosso lado em alguns programas não-próprios. Supermercado não é bacana. Eu mesma tenho vontade de gritar neles! Passei então a me esforçar em não inserir meu filho a estes programas, que não são adequados pra ele. Quando o levo para algum programa de adulto, porque a vida faz com que a gente não tenha controle de tudo, tento adaptar uma área em que ele possa se divertir com outras crianças ou outros estímulos em segurança. Não dá para esperar de uma criança algo que ela não está preparada para lhe ofertar. É preciso compreender. E não zangar-se.
Compreender o porquê da ação e não apenas bloquea-la, impedindo que meu filho descubra o que lhe atrai. Estar ao lado da criança a fim de que ela saiba da sua presença, buscando compreender suas dificuldades e ajudando que ele pudesse ultrapassa-las. E não apressando-se em reprimir um sentimento/desejo real.
Acho que meu dever de mãe não é dizer ao meu filho o que ele pode e não pode fazer. Não é que ele deixe de fazer algo simplesmente porque eu, ou algum outro adulto dissemos: "Não, você não pode."
Acho que meu dever de mãe, e para mim aí mora um enorme prazer, é auxiliar esta descoberta, dentro das possibilidades.
É aquela coisa, a gente renasce mãe.
Quando parei de tentar modificar o outro, e passei a olhar para mim e a modificar o meus olhos e coração notei que as coisas foram ficando mais fáceis.
É uma questão de aceitar a realidade: sou mãe de moleque de dois anos que faz bagunça, não sabe se comportar como adulto, é curioso e grita com estranhos que tocam nele na rua, ele diz não para muitas perguntas quando conhece alguém. Eu o compreendo perfeitamente. E o amo muito por ser assim.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Medéia

Sobre a incapacidade de entender:
Há dias Gabriel está falando uma frase do nada e que parecia indecifrável até pra mim.
Estava traduzindo como: "Eu vi a Medéia", mas me causava certo estranhamento porque Gabriel ainda não leu nenhuma tragédia grega.
Hoje consegui entender. Era só: "Eu tive uma ideia.".
Sério. Respirei aliviada a normalidade do meu filho.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pop star

Entro na padaria com Gabriel. Estou na geladeira pegando suco e ele sentado numa mesa comendo biscoito. Só escuto assim:
- Olha é o Gabriel!
- Ih é o Gabriel!
- Tá sumido hein?!
Sim. Estão se referindo ao meu Gabriel.
Meu filho é tão popular que nem sei...

sábado, 12 de julho de 2014

Educação filial

- Mãe, eu quero ir ali. Eu quero, mãe. Só um pouquinho.
- Gabriel, tem uma palavrinha que a gente usa quando quer as coisas. Qual é?
- Abracadabra?
Tô fazendo um ótimo trabalho.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Gabriel sente sono


- vamos brincar de bola, mãe?
- vamos!
- não quero brincar de bola, mãe!
- tá legal. Quer água?
- não quero água, mãe!
- tá legal. Vou guardar o copo.
- eu quero água, mãe!
- tá legal. Acho que você está com sono. Vamos dormir?
- não quero dormir, mãe! Não quero! Não vou dormir! Vou ficar acordado... Eu não tô com sono...
- tá legal. Gabriel? Gabriel? Gabriel? Ih... Dormiu!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Gabriel viu minhas pintas e resolveu examiná-las.
Pegou sua maleta de médico, olhou e disse:
- Ah não, são muitas pintas!
Eu perguntei:
- É grave doutor?
- Não mãe, não é grave. É pinta!