sábado, 11 de julho de 2015

Falando de amor

Aconteceu mais ou menos assim:
Ele estava dormindo a algum tempo, e começou a dar sinais que acordaria em breve. Reclamou enquanto dormia. Fui até ele e disse baixinho que eu estava ali. Para ele a minha presença sempre parece ser significativa. Ele sorriu enquanto dormia. Colocou a mão no meu pescoço e me puxou de uma só vez na sua direção. E disse tão claro e tão forte que minha alma se iluminou.
- Eu te amo!
Não bastando, levou meu rosto ao seu e me encheu de beijos. Foram muitos. Deitou ao meu lado e fingiu roncar no meio de um sorriso.
Foi assim, numa tarde de chuva, que meu filho falou de amor pela primeira vez sem pedir licença.
Foi assim, que eu me senti a mais amada, a mais sortuda, a mais feliz das mulheres.
E chorei baixinho porque é alegria demais sentir esse amor.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sobre escutar e obedecer

A primeira vez que falei ao meu filho, num tom duro e certeiro - "você precisa me obedecer." - senti um mal estar tremendo. Na verdade, não era este o meu real desejo. Esta era a reprodução do que a sociedade via ser o meu desejo de mãe.
Continuei a repetir a palavra "obedecer" numa tentativa de ter o controle, de não ter sobre mim esses olhares tão exigentes que insistem neste modelo falido da obediência cega do filho a seus pais.
Mas todas às vezes, absolutamente todas às vezes, não era isso o que meu coração desejava para a minha relação com o meu filho.
Demorei até compreender como alterar este círculo vicioso que vinha sendo inserido na minha vida. Meu filho não me deve obediência. Perdoem-me. Mas nem sempre eu sei o que é certo e errado. Não desejo que meu filho se submeta a minha vontade. Não desejo que meu filho acate as minhas ordens. Não, aqui não há uma relação de superioridade.
É claro que muitos dirão que estou apenas criando um pequeno monstro prestes a quebrar regras.
Mas não acredito nisto também, acredito que estou criando um ser humano livre, apto a perceber quais regras são sensatas e quais são ultrapassadas.
Um indivíduo que saiba respeitar o coletivo, e sua individualidade, não porque assim lhe disseram ser, mas porque ele observou, aprendeu e sente intimamente que assim é o correto.
Portanto, troquei a frase - "você precisa me obedecer." - para: "você precisa me escutar."
É só através da escuta do outro que vamos compreender as necessidades, é só através do diálogo que vamos chegar num meio-termo.
Só através da compreensão, do olho no olho, do amor, da percepção de que além de nós existem muitos outros, que a nossa vontade não é a única, que nem tudo que desejamos possuímos.
Quero que meu filho se torne parte da decisão, que seja fator ativo, que tenha sua autonomia levada em consideração e que contribua efetivamente para um bem comum. E que ele seja capaz de acordo com seu crescimento, que não seja exigido dele uma percepção que sua vivência ainda lhe forneceu. Mas que desde sempre ele possa sim, tomar as decisões e ter as percepções que sua idade lhe permite.
É esse meu desejo.
Que ele faça o certo, não porque assim eu lhe disse ser, mas porque ele e eu, abertamente dialogamos e descobrimos o caminho por onde ir.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Faltam menos de dez dias pro fim do ano e acho que fico sensível em despedidas.
Essa manhã você me deu um beijo de bom dia e uma vontade de chorar me imundou, embora eu tenha pensado não demonstrar, você me olhou nos olhos e soube que em mim morava a fragilidade, retribuiu meu amor com mais dois beijos, um em cada olho agora já molhados e me abraçou tão forte e tão sereno que eu quase esqueci que você tinha só três anos e que a mãe no caso sou eu.
Lá se vai o ano da força, meu pequeno.
Lá se vai o ano da cumplicidade, meu parceiro.
Lá se vai o ano do medo, meu herói.
Lá se vai. Lá se vai o ano que descobrimos juntos o poder do nosso amor.
O ano em que tive a certeza de que tudo o que sou hoje, tem você no meio. E que tudo que você é hoje, tem o que eu acho que devemos ser no futuro.
Você é a vida que pulsa em mim e tempo algum vai conseguir abrandar a brasa que ainda me queima o ventre com a certeza da sua chegada nesse mundo.

Te amo.
E como você costuma dizer pra mim nas suas declarações:
Te amo além e ao infinito.
Mamãe.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O filho

Desde que me percebi mãe, aprendi a reavaliar. E nem sempre reavaliar é simples e indolor.
A gente deseja ser ponto de apoio pra um filho, deseja que ele corra longe mas saiba que pode voltar, deseja que ele saiba do nosso amor independente do que ele faça ou seja, deseja que ele tenha a serenidade de que você estará ali mesmo quando ele errar, mesmo quando ele estiver só, mesmo quando nem ele queira estar. Você, mãe, vai estar. Vai descobrir forças onde não conhecia.
A gente deseja ser o nosso melhor. A gente deseja.
Mas nem sempre a gente é o nosso melhor.
Quase sempre a gente está é apenas tentando ser.
E tem ainda o momento em que você percebe que esse ser que divide a vida contigo, também está fazendo o melhor que pode. E você vai errar e ele vai ser testemunha.
Hoje foi um dos dias em que simplesmente eu estava errando. Errando feio. Eu estava cansada, irritada, num trânsito sem tamanho, sem ajuda de ninguém, cheia de coisas pra fazer e ao invés de perceber e tentar quebrar essa energia toda, eu continuava reclamando. Esbravejando sobre o trânsito, o sol, o carregador que não carregava, o flanelinha que achou que eu ia estacionar, o fulano do carro do lado que não parava de olhar, e o menino ali, irritando-se junto, começando a se queixar: essa cadeirinha é ruim. Posso sair dela? Posso ir em pé? Posso abrir a janela? Posso colocar a cabeça pra fora? Posso ir no porta malas? E a mãe enlouquecendo. Aquela vontade secreta que as mães nem sempre confessam de dizer: sim, só me deixa quieta! Mas insistindo em dizer apenas não. Não. Não. Naaaaaaaaooooooooo!
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Aí o menino vira e repete o discurso que a mãe prega desde sempre.
O menino quebra o ciclo. O menino diz a mãe o que ela ensinou ao menino.
Ele disse mais ou menos assim:
- Você tá feliz, mãe?
- Tô. Você tá?
- Tô irritado. A mamãe também tá irritada.
- É verdade... tô...
- Eu tô triste porque mamãe gritou comigo. Não precisa gritar.
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Aí eu fiquei ouvindo aquilo e não sabia o que sentir. Tava misturado, sensação de ser pega no flagra do erro.
Disse apenas:
- Sinto muito por ter gritado. Me desculpa. Tentarei não fazer de novo.

E ele estendeu a mão pra mim, segurou a minha e seguimos a viagem assim o filho compreendendo que a mãe também erra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Solidão materna

Ser mãe é muitas vezes uma das maiores solidões que alguém pode viver.
Não importa quem seja, o que faça, e o quanto sinta, jamais entenderá o amor que existe em você.
Cada amor de mãe pra filho é diferente, é único, contém traços incompreensíveis dedicação, zelo, receio e dor. Cada mãe se ocupa em compreender o próprio amor que nasce e a rebate. É uma busca pessoal e sem fim.
Estar com um filho é estar completa, mas ainda sim é estar só. Só, na labuta diária de cuidar, guiar e confortar... E é estar só na tentativa de compreender suas próprias dores e medos e alegrias minúsculas que outros olhos não são capazes de enxergar nas pequenas ações daquele ser tão querido.
É iluminar-se perante os olhares de carinho. É perder-se tentando buscar um caminho de ajuda. É rir-se por inteira ao ouvir um gracejo filial.
Mas ainda sim ser mãe é estar só. É pensar em alguém insistentemente a cada minuto. E nem sempre ter alguém pra dividir esses pensamentos. É sorrir com sorrisos gratuitos e se doer com cada lágrima perdida. É desejar o bem, é respeitar o limite. Ser mãe é tentar se acostumar com a ideia de que um dia os filhos se vão e dar o melhor de si para que eles vejam outros mundos com um pouco de você entranhado. É achar que morrerá de saudade e ainda sim querer que ele vá e seja feliz, tão feliz que a felicidade transborde. Ser mãe é não se doer com possíveis rejeições. É esperar cada regresso com a certeza que tempo algum consegue abrandar a brasa de amor que vive no seu peito. É perdoar, num sentido muito mais amplo e sincero do que até então você foi capaz. É ter longos braços que acomodem sinceros pedidos de proteção. É ter boca sábia capaz de acalmar as mais profundas dores. É ter pés velozes que chegam aonde for preciso na velocidade da luz, se assim tiver que ser. É partir-se quando um filho sofre, para em seguida recolher seus cacos para que um filho aprenda que nenhuma dor é eterna, que tudo passa, que tudo fica bem.
Ser mãe e estar só na companhia do amor.
Ser mãe e pedir ajuda.
Ser mãe e estar só mesmo quando se tem ajuda.
Ser mãe e não saber o ser.
Ser mãe e errar.
Ser mãe e sentir medo.
Ser mãe e continuar tentando.
Ser mãe apesar de tudo e qualquer situação.
Ser mãe e amar.
Sempre ser mãe.
A sua mãe.

domingo, 19 de outubro de 2014

Gabriel,
Estou com meu coração em festa. Aqui dentro toca música todos os dias. E adivinhe só que é que as compõe?
É você, menino moleque de sorriso grande e pés velozes.
Dentro de mim, nasceu junto de você a festa mais linda de todas, nela tem bolas de sabão que levantam vôo sumindo na imensidão azul levando com elas as energias que não precisamos deixar conosco. Nessa festa tem nossos doces favoritos, tem brincadeira de montão, confete estourando e derrubando sobre nós uma chuva de cor. É festa de todo dia, ela não acaba, ela revive a cada manhã quando eu me viro e encontro você com esses olhos de amor que parecem me conter dentro.
Desde que você chegou todo dia é verão, inverno, primavera e outono. Todo dia é turbilhão de sensações, é amor pulsante que me move em direção ao amanhã.
Vem, meu menino amado, meu colo é teu, embora nele você já pareça tão grande.
Deixa eu te abraçar comprido e me perder no seu amor.
Olha aqui, sou eu, está vendo?
Fui feroz pra te trazer a este mundo, e sou eternamente grata por você ter sido ainda mais feroz por querer vir a este mundo comigo.
Eu lhe digo ao pé do ouvido todas as manhãs quando você acorda, agora digo aqui:
Gratidão, meu filho, por me aceitar como mãe, por me amar enlouquecidamente, apesar desses tantos defeitos que carrego comigo, por se acalmar no meu colo, por sentir que suas dores acabam após meus beijos. Por me olhar quando está nervoso e buscar em mim a serenidade que precisa.
Gratidão, meu filho, por errar, e me ensinar que a paciência, amor e diálogo resolvem tudo.
Gratidão, meu filho, por não gostar de todas as coisas que eu gosto, e me ensinar a gostar do novo, abrir mão das minhas vontades e ceder, respeitar as tuas e claro, por aumentar meu poder persuasão quando se trata de verduras, legumes e frutas.
Gratidão, meu filho, pelas minhas olheiras, dor nas costas, peitos não tão bonitos quanto antes, cansaço de noite mal dormidas.
Tudo isso, se torna lindo e bom, porque significam que eu e você estamos aqui e juntos. São nossas marcas, e a elas sou grata.
Menino, vem, me dá tua mão, vamos continuar dançando juntos a dança a vida que mais um ano passou e tantos outros passarão sendo você meu par. Eu e você juntos, e quando outros nos tirarem pra dançar, aceitaremos felizes, porque nosso círculo de amor só cresce, com o amor que vem desses seres de luz que nos acompanham.
Estou sorrindo, vê? Meus olhos, ouvidos, fios de cabelos, mãos, barriga, todo meu corpo sorri.
Meu filho está aqui. Completaram três anos de sua chegada.
Completaram três anos de que desafiamos o impossível. Completaram três anos que o amor venceu, que o amor falou mais alto que as probabilidades, que as opiniões médicas, que o medo, que a dor. O amor venceu e vai continuar vencendo porque ele é grande demais e só cresce em mim e quando não cabe mais ele se abriga no coração dos nossos amigos que desejam nosso bem.
Gratidão a esses amigos também.
Feliz aniversário filho.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cenas da vida materna - O banho

Três, dois, um... o desenho favorito da criança começou. Ah, maravilha. Você respira fundo e vai. Tem quinze, se tiver sorte vinte minutos para fazer o que precisa. Começando por... Um banho!
Tira a roupa, rápido. Mães adquirem grande habilidade em rapidez.
Lembra que é melhor avisar a criança que vai estar debaixo do chuveiro, porque com certeza ela irá lhe chamar, mesmo hipnotizada pelo desenho, você sabe que ela vai te chamar ou para compartilhar um momento ápice na vida dos personagens animados ou para você pegar algo já que ela não quer tirar os olhos dos personagens animados. Então você, corre, metade vestida e metade não, diz:
- Filho, vou tomar um banho rapidinho. Qualquer coisa a mamãe tá aqui!
- Tá.

Volta pro banho.  Liga o chuveiro. Banhos estão diretamente ligados ao nível calmaria que você consegue lidar com as situações estressantes do seu dia a dia. Entra. Ah, o banho! Que delícia! Voltar a ser um ser humano, e não só apenas um ser humano mãe. O banho após a maternidade pode não significar apenas "um banho". Ele mostra que você tem quinze, se tiver sorte vinte minutos, de estar totalmente voltada para si, em busca de conexão consigo mesma. Podendo respirar calmamente... Droga! Sou mãe! Não dá tempo de filosofar no banho, faça escolhas: filosofia ou lavar o cabelo... Lavar o cabelo, claro!

- Mãããããeeeee!
- Quêêêê?????
- Vem aqui!!!!!!
- Tô no banho, lembra?
- Ah é!

Shampoo. Condicionador. Barulho na sala: Pfffffffffffffffffffff!

- Filhooo, que barulho é esse?
...
- Filho!
...
- Filhoooooooooooooooooooooooooooooo!
...

Então você sai do banho, ainda com condicionador no cabelo, sabonete nos olhos e vociferando pra si mesma: Ai! Sabia que não devia ter deixado ele sozinho. Sabia! Que espécie de mãe eu sou? E tudo isso pra que? Por mais um banho no meio da tarde que me faz relaxaaaaaaar!! Eu não preciso relaxaaaaaar!

- Cadê vocêêêê, meu amor, minha vida, meu filhooooo??????????
- Tô aqui, mãe. Tava só brincando no meu quarto! Fica calma!