Muitos pais costumam se preocupar com o que seus filhos estão aprendendo, e para isso voltam seu olhar para o que está sendo ofertado a ele para que construam desde cedo uma bagagem de conhecimentos pronta para ser acessada no futuro.
Acredito entretanto, que esta perspectiva pode ser alterada para uma melhor percepção da infância e das suas reais necessidades. A pergunta deveria ser modificada em sua raiz obtendo uma nova finalidade semelhante, sem contudo gerar uma expectiva frustrante nos pais e uma sensação competitiva nas crianças. Deveríamos nos perguntar: Do que meu filho está brincando?
Mas antes, é preciso esclarecer o que podemos chamar de brincadeira. Digo brincadeira, brincadeira mesmo. Dessas que deixam a imaginação voar, para bem longe, num faz-de-conta criado pelos pequenos inventores do novo mundo e sem tantos moldes e referências pregados que só servem para engessar a criatividade que transborda das crianças. Ou ainda, sem tantos estímulos eletrônicos, tão comuns nos dias de hoje e que constróem uma barreira entre pais e filhos, servindo muitas vezes apenas como uma ferramenta de distração prática dos tempos modernos.
É preciso reaprender a brincar! Estamos perdendo o valor deste momento em que pais e filhos se colocam disponíveis um para o outro, onde são estímulados a rir, errar, sonhar e aprender juntos. É só pensar na nossa infância que virá a nossa mente diversas imagens de brincadeiras simples e pueris que nos marcaram de forma tão profunda que trazemos seus estímulos até hoje na vida adulta.
Sem dúvida é na brincadeira que a criança mais aprende e é uma atividade fundamental deste período para expressar e elaborar diversos fatores e conteúdos que foram ofertados no cotidiano desta criança. É uma forma de poder exercitar e recriar modelos que teve a oportunidade de observar na vida prática, numa espécie de ensaio das funções que ocupará futuramente. É desta forma que ela compreende melhor seus sentimentos, relações, corpo e o ambiente que lhe cerca.
Junto com o crescimento da criança, as brincadeiras evoluem e tornam-se ainda mais simbólicas e acompanhadas de relatos verbais repletos de riquezas que falam sobre a personalidade da criança, suas facilidades e dificuldades. É este brincar que facilita o crescimento, portanto é necessário que o adulto esteja preparando para propiciar um ambiente livre, sem pressões e objetivos massificados para serem cumpridos.
Pelo contrário, deve-se respeitar as potencialidades de cada criança, percebendo sua aptidões e ofertando um material seguro para que ela possa se expressar. Quando tolhidas no ato de brincar, as crianças podem levar para a vida adulta uma série de dificuldades motoras e emocionais desnecessárias.
Nenhuma criança é igual a outra. Mais importante do que um aprendizado visando o futuro, uma criança deve brincar para desenvolver sua criatividade, aprender a exteriorizar seus medos, dominar angústias internas normais do desenvolvimento, organizar-se emocionalmente e iniciar um ensaio para suas relações e contatos sociais. É necessário compreender que o universo infantil é composto de um imaginário rico e que sua composição passará necessariamente por todas as brincadeiras e pela arte que lhe foram ofertados.